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2003-06-08
ENTREVISTA COM ROBERTO MEIRA BARRETO - Setur promete dar um basta no “prostiturismo”
 
Diario Do Nordeste - 08/06/03
Investir no turismo internacional, mas de qualidade. Esta é a determinação de Roberto Meira Barreto, 49 anos, titular da Secretaria de Turismo (Setur). “Não nos interessa esse tipo de turismo”, diz, repudiando o turismo sexual e, conseqüentemente, a prostituição infantil. E para provar que está disposto a dar um basta no “prostiturismo”, o secretário, assegura de antemão que recorrerá até ao DAC (Departamento de Aviação Civil) para impedir pouso de aeronave de empresas que se destinam a esse tipo de turismo. Bacherel em Direito, com especialização em Administração pela Fundação Getúlio Vargas, promete elevar a participação do turismo no PIB do Ceará de 8% para 9,5%, além de investir no turismo rural. Pretende pedir US$ 130 milhões ao Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) para o Prodetur II, que incluirá ações de preservação do patrimônio histórico cultural e do meio ambiente. É hora de arrumar a Cidade que se prepara para a próxima alta estação, marcada principalmente pelo turismo doméstico. No ano passado, 173.436 pessoas visitaram Fortaleza neste período, das quais 159. 561 brasileiras e 13.876 estrangeiras
Diário do Nordeste - Como a Setur está se preparando para a próxima alta estação, uma vez que este ano, com as fortes chuvas, a Cidade sofreu transtornos que passam pela própria infra-estrutura (buracos, lixo) e, até pelo agravamento do quadro epidemiológico (epidemia de dengue, viroses)?
Roberto Meira - Estamos preocupados com a alta estação, já que precisamos estar com a Cidade muito bem arrumada. Dentro do âmbito da Secretaria de Turismo, temos feito articulações com as diversas secretarias e interagido muito com a Prefeitura Municipal, a quem cabe a maioria das ações de infra-estrutura da Cidade. A Secretaria de Infra-Estrutura do Estado também está participando dos trabalhos para dar uma limpeza nas rodovias estaduais. Estamos promovendo essa interação também com a de Secretaria de Segurança Pública. Enfim, esperamos que no mês de julho estejamos com a Cidade muito bem preparada para recepcionar bem o turista.
— Quais as estratégias que a Setur pretende desenvolver para o turismo cearense sair do tripé praia-sol-mulher?
Roberto Meira - No nosso próprio planejamento estratégico consta o desenvolvimento de produtos e destinos turísticos. E existem duas ações fundamentais para isso. Primeiro, a qualificação de todas as pessoas envolvidas com o turismo e, segundo, a infra-estrutura territorial. Vamos tratar muito da capacitação e da qualificação nas microrregiões. Não somente na região litorânea, mas em todas as seis microrregiões que temos no Estado. A interiorização do turismo também é outra vertente que estamos adotando para transformar esse trinômio ao qual você se referiu (sol-praia-mulher) no trinômio sol, serra e sertão.
— Existe alguma ação concreta nesse sentido? Ou seja, foi escolhido algum local para implementar o trinômio sol, serra e sertão?
Roberto Meira -
A primeira grande ação que deveremos estar realizando é a qualificação de um destino que envolve Jericoacoara, Camocim e Viçosa , na Serra da Ibiapaba. Com isso estamos ligando essas três vertentes que é serra, sertão e mar. Já é uma ação concreta, não estamos apenas no discurso.
— Uma das propostas do governo seria investir no turismo rural. O que existe de concreto sobre o assunto?
Roberto Meira - Temos uma ação realizada no interior e dado apoio à Associação Cearense do Turismo Rural (Aceter) para fortalecer esse ramo que é fundamental para nós também. Dentro desse programa de interiorização, o turismo rural é uma das grandes âncoras que dispomos. Estamos com ações pontuais que estão sendo realizadas.
— O senhor poderia citar alguns locais onde essas ações estão sendo desenvolvidas?
Roberto Meira - Existe uma ação pontual em Guaiuba, Quixeramobim e Quixadá.
— O que representa o turismo cearense no PIB do Estado?
Roberto Meira - Representa hoje 8% do PIB e a nossa meta é chegar a 9,5%.
— Como o senhor pretende chegar a essa meta?
Roberto Meira - A partir das ações que estamos desenvolvendo, como por exemplo, a interiorização e o desenvolvimento do marketing turístico, atraindo mais turistas para cá. O próprio trabalho que temos feito no exterior, que traz um turista com a renda per capita melhor. Ou seja, gasta-se um pouco mais e com isso você melhora a participação do turismo no PIB do Estado.
— Qual a avaliação que o senhor faz do Prodetur I?
Roberto Meira - Ele foi essencial para que déssemos um salto no turismo. Desde o início do Prodetur I até agora, o Ceará teve um crescimento extraordinário. Essa qualidade só foi conseguida devido à reforma do aeroporto, que era extremamente acanhado e foram gastos US$ 70 milhões do Prodetur I. A rodovia estruturante que hoje liga todas as praias do litoral Oeste, as obras de saneamento nesses municípios impactantes e recuperação de toda malha viária no entorno de Fortaleza. Sem ele, não conseguiríamos dar a qualificação necessária a esse pólo da Costa do Sol Poente.
— Em quanto está orçado o Prodetur II e o seu foco de atuação será continuar investindo em obras (Centro Multifuncional de Feiras , por exemplo) ou será voltado para aperfeiçoamento de mão-de-obra?
Roberto Meira - Vamos pedir aproximadamente US$ 130 milhões, mas sabemos que é praticamente impossível conseguir. O valor certo só será informado depois que o Banco do Nordeste e o BID levantarem a capacidade de endividamento dos estados e de todos os pedidos apresentados. Por isso é que só poderemos informar o valor exato depois de assinar o subcontrato, que deve acontecer no final deste ano.
Agora, ele vai contemplar algumas obras de infra-estrutura ainda absolutamente necessárias para dar o salto de qualidade que o turismo precisa. Cito o Centro Multifuncional de Feiras, aeroporto em Parazinho (distrito de Granja entre este e Jijoca de Jericoacoara) e algumas outras obras estruturantes. Mas a grande vertente do Prodetur II, complemento do Prodetur I, será a capacitação nos municípios impactantes, a restauração e a conservação do nosso patrimônio histórico e cultural, o término das obras de saneamento e de preservação do meio ambiente.
— O que o senhor pretende fazer para que o Ceará deixe o estigma de que não tem infra-estrutura para receber turistas, que acabam sendo explorados e saindo malsatisfeitos com os serviços?
Roberto Meira - Não concordo com essa afirmativa e vou lhe dizer porquê discordo. Primeiro, temos um dos aeroportos mais modernos do Brasil. Segundo, a nossa rede hoteleira, seguramente, é a mais moderna do Nordeste, temos equipamentos como o Centro de Arte e Cultura Dragão do Mar, rodovias estaduais como poucos estados têm. Então, não sei que tipo de infra-estrutura nos falta. Agora, nós temos necessidade de outros equipamentos. Existe carência de resorts, de campos de golf, como também de aeroportos tanto no extremo Leste como Oeste, já que possuímos 573 Km de praia. Mas não se faz da noite para o dia. Somos um estado pobre, portanto, com recursos limitados. Apesar dos avanços (aeroporto moderno, rede hoteleira, rodovias estruturantes), ainda precisamos melhorar um pouco a nossa Cidade.
— O que, por exemplo, precisa ser melhorado?
Roberto Meira - Ainda temos alguma coisa que melhorar na Praia do Futuro. Precisamos resolver o problema na Praia de Iracema, que hoje está degradada e necessitando de um esforço conjunto de toda a sociedade. O Estado não tem essa carência toda de infra-estrutura. Precisamos dar uma arrumada na cidade de Fortaleza que é o grande portão de entrada e começar a trabalhar a qualificação de algumas âncoras como Jericoacoara e Canoa Quebrada.
— Qual o impacto da crise argentina no turismo cearense?
Roberto Meira - É uma preocupação. Afetou um pouco, mas já estamos retomando as ações de promoção naquele país no qual apostamos muito. Temos um vôo para Buenos Aires. Entretanto, considero que os estados do Sul sofreram muito mais. Apesar das circunstâncias, ainda temos o turista argentino como uma das grandes perspectivas nossas. Como eles estão em fase de recuperação, vamos voltar a investir um pouco mais no mercado argentino. Hoje, o turista argentino representa o quarto lugar entre os visitantes cearenses.
— E quem é o primeiro?
Roberto Meira - Portugal. O segundo é a Itália e o terceiro, os Estados Unidos.
— Qual é o percentual do turismo internacional no Ceará. Esse setor foi prejudicado nos últimos anos pela associação ao “prostiturismo”?
Roberto Meira - O turismo internacional representa hoje aproximadamente 20% do número total dos visitantes. Estamos preocupados com isso uma vez que queremos aqui um turismo de qualidade, familiar. O Ceará avançou muito no turismo internacional. Hoje, é grande o número de turista que vem aqui em busca do turismo familiar. Agora, infelizmente, tem esse segmento (turismo sexual) que vem sendo combatido.
— Então não houve prejuízo?
Roberto Meira - Pelo contrário. Estamos na contramão do Brasil, graças a Deus. Enquanto no Brasil, o turismo internacional caiu de 5,1% para 3,8% em três anos, o nosso dobrou. Em 1999, o Ceará recebeu 90 mil turistas estrangeiros contra 182 mil no ano passado.
— Aliás, como está hoje a imagem do Ceará no exterior, ainda está associada ao turismo sexual?
Roberto Moreira - Vou discordar de você. Tivemos um problema localizado na Holanda. Agora, a imagem do turismo do Ceará no exterior não está assim, não. É preciso dizer que o problema existe e que o reconhecemos. A imagem que o português, um dos povos que mais nos visitam, tem do Ceará é de uma gente hospitaleira e de um terra alegre. O que temos que fazer é combater de maneira intransigente o turismo sexual e a prostituição infantil para que essa imagem boa que temos, principalmente em Portugal, não venha a se deteriorar.
— Existe alguma ação nesse sentido de conservar essa boa imagem do Ceará?
Roberto Meira - Estamos trabalhando em parceria com a Secretaria de Cultura e a Prefeitura Municipal nesse programa “Iracema de todas as tribos”, no sentido de dotar a Praia de Iracema de atividades culturais que venham a combater a questão da prostituição. Trabalhando em sintonia com a Secretaria de Segurança Pública e Prefeitura para fechar estabelecimentos de prostituição e procurando incentivar as empresas de vôo charter para que criem desconto para viagens de grupos em família, além da divulgação de folders demonstrando nossa disposição de combater o turismo sexual. E, eventualmente, se precisar, vamos pedir ao DAC (Departamento de Aviação Civl) que não permita pouso de aeronave de empresas que se destinam a esse tipo de turismo porque não interessa para nós.
— O senhor acha que os vôos charters servem para alavancar o turismo internacional ou podem prejudicar, a exemplo do ocorreu com o da Itália?
Roberto Meira- Temos que tomar cuidado com o vôo charter porque ele tem que ser muito bem administrado. Defendemos uma política nacional para esse tipo de vôo. Inclusive, o Ceará, através da Setur, está fazendo parte de um grupo de trabalho no Ministério do Turismo no sentido de apresentar propostas para disciplinar essa questão. Consideramos que é importante para o Estado, mas não podemos nos esquecer das companhias aéreas que nos atendem regularmente, a exemplo da TAP.
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